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Não é bem isso que provavelmente você esteja pensando. Siga comigo até o fim, não prejulgue minhas elucubrações, e possivelmente você tangenciará os caminhos dos meus pensamentos.

A distância que nos separa das tragédias da vida parecem minimizar seus impactos sobre nossas emoções. Quanto mais distante, elas nos parecem menos chocantes, e nos passam mais desapercebidas. Ao contrário, quando mais próximas de nós, elas nos afetam mais intensamente.pastor

Tragédias com pastores e suas famílias não são acontecimentos apenas recentes, sempre houve e sempre haverá. Pastores e suas famílias são seres humanos, sujeitos as mesmas vicissitudes experimentadas por qualquer outra pessoa, ou família. No entanto, nos últimos tempos parecem ter se avolumado o número de tragédias, quer por escândalos, quer por fatalidades.

Dias atrás (em 31 de maio de 2015), um acontecimento chocou a cidade de Houston, no Texas. O pastor Phil Lineberger, pastor da Sugar Land Baptist Church, depois de meses enfrentando um processo de profunda depressão, suicidou-se. Quatro anos antes, ele pregava no funeral de um de seus melhores amigos, o também pastor John Petty, pastor of Trinity Baptist Church in Kerrville, que também suicidou-se. Este e outros momentos trágicos suscitam muitas perguntas, mas encontram poucas respostas. Quem são esses homens e mulheres que doam suas vidas ao próximo, mas que muitas vezes sofrem tanto? Por que se dedicam tanto aos seus rebanhos e muitas vezes não cuidam de si mesmos? Por que estão sempre prontos para cuidar dos outros e na maioria das vezes não tem quem cuide deles?

Em 2007 o Francis A. Schaeffer Institute of Church Leadership Development publicou o resultado de uma pesquisa feita durante 18 anos, sobre pastores e seus ministérios[1]. Ela é extensa e complexa. Porém gostaria de destacar algumas conclusões:

  • 90% dos pastores afirmam que estão frequentemente cansados e desgastados.
  • 89% dos pastores pesquisados consideraram pelo menos uma vez, deixar o ministério.
  • 57% disseram que deixariam o ministério se eles tivessem um lugar melhor para trabalhar, incluindo o trabalho secular.
  • 71% dos pastores afirmaram que estavam queimados, e lutavam contra depressão além de fadiga, semanalmente e até mesmo diariamente.
  • 78% disseram que foram forçados a renunciar suas igrejas, pelo menos uma vez.
  • 63% disseram que foram dispensados de suas funções pastorais, pelo menos, duas vezes.

A pesquisa perguntava a razão de renunciarem ou serem dispensados de seus pastorados. Das 15 razões mas frequentes, as três primeiras foram: liderança fraca, conflitos com pessoas chaves ou liderança leigas, e fofocas. Parece-me que aí está o “x” da questão. Claro, não quero ser simplista e atribuir uma causa única à um problema tão complexo como este. No entanto, eu creio que este tem sido um fator extremamente relevante, principalmente nas denominações históricas em que a responsabilidade do governo eclesiástico é compartilhada entre o pastor e seus líderes. Os conflitos de liderança tem queimado pastores e líderes, e imposto terríveis sofrimentos às igrejas. Sinceramente, não creio na intencionalidade perversa ou má, de nenhuma das partes. Todos, e todas as partes desejam e buscam sinceramente o melhor para a Igreja de Jesus. Eu acredito que as diferentes maneira de ver a realidade têm colocado pastores e líderes em campos distintos e em rota de colisão. E, é neste ponto que identifico características dos pastores com a mula, a mula de Balaão. Se você não se lembra muito bem desta história, sugiro que releia Números 22, antes de continuar a leitura desta minha reflexão.

Comumente, comparar uma pessoa a uma mula pode ser agressivo, ou até mesmo ofensivo. No entanto, as mulas são animais com características muito especiais e interessantes. Pastores são como mulas. As mulas são animais serviçais e dóceis no trabalho pesado. Pastores possuem especial paixão pelo seus ministérios e pelas ovelhas, o que os tornam pessoas de uma incomum dedicação, no que fazem. Eles não têm horário definido de trabalho, e nem funções definidas. Estão de prontidão a todo momento, para o que der e vier. Via de regra, não sabem dizer não quando requisitados, seja para o que for. E, quando por algum motivo precisam dizer não, são tidos como relapsos, omissos e faltosos com as responsabilidades de seus chamados. Mesmo sendo espancada por Balaão, seu dono, ali estava sua mula, resignada e fiel à sua missão, dedicada e pronta para servir. Muitos pastores têm chegado ao total esgotamento pelo simples fato de se dedicarem sem reservas e sem limites aos seus chamados.

Em determinado ponto da caminhada, a mula viu o Anjo do Senhor com uma espada na mão e desviou-se do caminho. Interessante, que apenas a mula viu o Anjo. Nem Balaão, nem seus dois auxiliares que viajavam com ele podiam ver o anjo. Isso se repetiu por três vezes e, Balaão a espancava, sem entender as reações da mula. Por fim, não tendo por onde passar, a mula empacou no caminho e foi duramente espancada, e o Senhor a fez falar.

O pastor, muitas vezes, é um visionário solitário. Sua vocação o privilegia, permitindo-lhe “ver anjo” no caminho, onde muitas vezes, ninguém vê. Suas reações e as direções de suas escolhas não podem ser entendidas por aqueles, para quem o Senhor não permitiu “ver o anjo” no caminho. Por vezes, eles são açoitados com duras críticas por aqueles que não podem “ver o anjo”. E, muitas vezes o Senhor não os permite falar, como permitiu à mula de Balaão. Eles precisam caminhar solitários, enfrentando os açoites dos ventos contrários. Muitos deles sucumbem à tão intensa pressão, adoecem física e emocionalmente. Esta tensão torna-se significantemente maior nas denominações em que a condução da igreja precisa ser compartilhada em harmonia com a liderança leiga da igreja.

Por esta causa, o autor da carta aos Hebreus exorta-nos: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”[2]. O autor de Hebreus dá fortes razões para que sejamos obedientes aos nossos pastores: porque velam por vossa alma; porque isso [servir com gemidos de dor] não vos seria útil. Em outras palavras, o autor está dizendo que todos saem perdendo com o espírito de desobediência e rebelião na Igreja. Urge, que a Igreja de Jesus retorne ao reto caminho de ser mais Corpo de Cristo e menos empresa; que os líderes leigos e pastores sejam mais servos e menos gerentes; que as Igrejas sejam mais campinas verdejantes que alimentem seus rebanhos e menos currais e empresas. Que o Senhor nos abençoe!

[1] Acessado em 29 de junho de 2015, http://www.intothyword.org/apps/articles/default.asp?articleid=36562&columnid=3958

[2] Hebreus 13:17 (ARC)