Tags

, , , , , , , , , ,

Assim como a água reflete o rosto, o coração reflete quem somos nós. (Rei Salomão em Provérbios 27:19 NVI)

Verdade

 É atribuída ao filósofo grego Sócrates a célebre sentença “conheça-te a ti mesmo”, que orientou o pensamento filosófico desde

o século V a.C. até a mudança da vertente filosófica introduzida pelos conceitos freudianos, no século XIX. Para a filosofia ocidental socrática a felicidade humana está nopleno autoconhecimento alcançado exclusivamente pela razão. A partir de Freud, uma outra abordagem sobre o autoconhecimento passou a imperar. As emoções passaram a ser reconhecidamente a parte fundamental desse processo. Ou seja, não há como uma pessoa ser feliz sem o autoconhecimento e a única possibilidade do autoconhecimento seria a transparência, na área das emoções. Assim, apenas a liberação da emoções sufocadas pelo consciente poderia trazer a felicidade humana. A
humanidade está sempre, numa frenética busca da felicidade.

O nosso Senhor Jesus viveu e ensinou o Evangelho restaurador da felicidade humana, num mundo inebriado pelo racionalismo socrático. Neste mundo racionalista, a busca pela felicidade consistia no pleno conhecimento da verdade. E, a verdade por sua vez, consistia no absoluto conhecimento de si mesmo, pela exercício da própria razão. Por isso, inúmeras vezes Jesus foi questionado sobre “o que é a verdade”. Na correnteza de tais indagações Jesus ensinou-nos o caminho da verdadeira felicidade humana que não está nem no autoconhecimento pelas trilhas do racionalismo socrático, muito menos no autoconhecimento pelo liberação do prazer pela superação do superego, de Freud. Jesus apresenta a verdade como sendo o conhecimento de nós mesmos, através da revelação do Criador. Deus, somente Deus como criador do ser humano pode conhecê-lo completa e profundamente. Somente o conhecimento perfeito de quem somos, através da Revelação de Deus, pode nos proporcionar a felicidade genuína.

Aos 31 anos de idade, chafurdado numa agonizante depressão, C. S Lewis rompeu com o ateísmo e abraçou a fé cristã, tornando-se um grande defensor do autoconhecimento através da revelação de Deus, como único e insubstituível caminho para a verdadeira felicidade. Com sua conversão, passou a afirmar que a alegria se tornara a história central de sua vida. Assim, ele descobriu a felicidade que nasce do restabelecimento do nosso relacionamento com o Criador. É o milagre da salvação de Deus em Cristo, tornando nosso coração habitação de Deus, que nos revela quem de fato somos. Por isso o sábio Salomão afirma: “… o coração revela quem somos nós”[1] . Em Mateus 12:33 a 34 Jesus nos compara a uma árvore e nesta metáfora Ele desvenda a perfeita harmonia, fruto do autoconhecimento que provém da revelação do Pai.

Em primeiro lugar, Ele afirma que somos o que produzimos. “Considerem: Uma árvore boa dá fruto bom, e uma árvore ruim dá fruto ruim, pois uma árvore é conhecida por seu fruto”.[2] Muitas vezes usamos esse versículo para argumentar quem são nossos irmãos, ou outras pessoas. Mas essa não é a ênfase de Jesus. Se retornarmos ao início do capítulo veremos que Jesus estava tratando com a hipocrisia dos fariseus. Assim o que Jesus quer aqui dizer é, conheça-te a ti mesmo. Através dos nossos próprios frutos nós sabemos quem somos. Nossa identidade é firmada naquilo que produzimos ou no que deixamos como legado. Por onde passamos, semeamos um pouco do que somos. Se semeamos paz e alegria somos do Reino de vida e comunhão; se semeamos ódio e contendas, é porque somos do Reino das trevas e da morte. Quem somos? Nossos frutos nos revelam.

Em segundo lugar, Ele mostra, que a integridade de cada pessoa é definida por sua coerência entre o que é, e o que se aparenta ser. “Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas?”[3] Hipocrisia é conviver pacificamente com o contrassenso de ser mau e aparentar coisas boas. A verdadeira felicidade em Cristo repousa em uma vida autêntica, reconhecendo nossas fragilidades e expondo-nos sem medo e sem hipocrisia. Só há uma forma de vencer nossas fragilidades: reconhecendo-as! Reputação é o que cada pessoa se mostra diante do próximo, caráter é o que se mostra diante do onisciente poder de Deus. Não há nenhuma possibilidade de felicidade, vivendo uma mentira para si mesmo. Conhecer-te a ti mesmo é não aceitar a desastrosa dicotomia do “ser e do aparentar ser”. A autenticidade é a pavimentada estrada que nos conduz à liberdade que nos traz paz e vida abundante. A leveza de uma vida autêntica, sem máscaras é a mais preciosa pérola que adorna o caráter cristão. Em terceiro lugar, Jesus nos ensina que somos resultado daquilo com que nos alimentamos. “O homem bom do seu bom tesouro tira coisas boas, e o homem mau do seu mau tesouro tira coisas más”.[4] Somos o resultado daquilo que comemos. Se nos alimentamos de coisas boas e saudáveis teremos como recompensa saúde e bem estar. Assim também somos resultado daquilo, para o que oferecemos nos ouvidos. Se ouvimos murmurações, queixas e pessimismo, do nosso coração tiraremos amargura, tristeza e derrotismo. Tiramos do coração aquilo que permitimos descer ao coração. E, desce ao coração aquilo que entra pelos nossos ouvidos.

Meu velho pai tinha uma máxima que sempre nos ensinou: “o coração se engravida pelos ouvidos. Por isso, selecione bem aquilo para o que você empresta seus ouvidos”, dizia ele.

Todas as virtudes cristãs emanam do perfeito autoconhecimento. Não há possibilidade de felicidade sem conhecermos a verdade sobre nós mesmo. A Palavra de Deus é o espelho que nos revela quem somos. Sem tal conhecimento jamais alcançaremos a felicidade. Por isso, disse Jesus: “…e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.[5] Que o Senhor nos abençoe e nos faça conhecer quem de fato somos. Só assim, alcançaremos a mais genuína felicidade da vida cristã.

[1] Provérbios 27:19, NVI

            [2] Mateus 12:33, NVI

            [3] Mateus 12:34, NVI

            [4] Mateus 12:35, NVI

            [5] João 8:32, AA