Tags

, , , , , , , , , , , , ,

Pode parecer estranho e até melancólico, mas é isso mesmo: MENOS um ano de vida. Em rigor não seria hoje, mas como não sei o dia da minha partida, considero o dia da minha chegada.Se queres viver, prepara-te para morrer

O neurologista austríaco de origem judaica, criador da psicanálise, Sigmund Freud discerniu com sabedoria o segredo da vida: “Se queres viver, prepara-te para morrer”. Este conceito freudiano não está tão distante, nem é muito diferente do conceito judaico-cristão da vida. O salmista clama ao Senhor: “Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria” (Salmos 90:12). Na sua oração, o salmista nos ensina que atinar para a finitude da vida e considerar com naturalidade a efemeridade dela é alcançar a verdadeira sabedoria. Alienados são aqueles que vivem como se a vida terrena fosse infinita, como se não houvesse um deadline para cumprir a nossa missão na terra. Os insanos desperdiçam suas vidas com banalidades, sentimentos mesquinhos e buscas de trivialidades efêmeras. O profeta Amós, no capitulo 4, condena veementemente as banalidades e a insensatez do povo de Israel, concluindo com uma séria advertência: “… prepare-se para encontrar-se com o seu Deus.” (v.12).

Hoje, completo MENOS um ano de vida, isto mesmo. É muito provável que aos 56 anos, eu já tenha vivido mais do que ainda viverei. É um desatino ignorar que não haverá um fim nesta nossa efêmera jornada terrena. O tempo é curto para frivolidades. Não tenho tempo para perder tempo para nugacidades. Termino, fazendo minhas as palavras do saudoso e inesquecível pensador Rubem Alves, em seu magnífico artigo intitulado “O tempo e as jabuticabas”:

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio. Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de ‘confrontação’, onde ‘tiramos fatos a limpo’. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: ‘as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa… Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.’ O essencial faz a vida valer a pena… e para mim basta o essencial.