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 O Caminho da Paternidade Gênesis 22: 1 – 20 

A trajetória de Abraão e seu filho Isaque ao monte Moriá para o holocausto, certamente é uma das mais estranhas histórias das Escrituras, difícil à compreensão e razão humana. Se quisermos fugir a perplexidade do horror e drama humano que nos causa essa história, devemos mergulhar tão somente na tipologia teológica, tomando a narrativa que nos traz um pai sacrificando seu filho, assim como, tempos depois, Deus mandaria seu filho Jesus para se dar em sacrifício por nós na cruz. Mas isso não nega o fato de que do ponto de vista da narrativa crua a história é dramática, com implicações psicológicas e familiares profundas. 

O filósofo Kierkegaard era tão impressionado com essa história que dedicou uma de suas mais importantes obras filosóficas a esse episódio bíblico, no seu livro Temor e Tremor, onde avalia diferentes pontos de vistas dessa narrativa, sempre considerando a natureza da fé: E é fundamentalmente como paradoxo que a fé se revela e se constitui como caminho alternativo num mundo tão frio e lógico, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão. Para ele Abraão não é um herói, não é um louco, não é um pai frio e indiferente que não amava seu filho, pelo contrário, é tão somente um homem de fé; grande porque luta com Deus e desarma Deus pela sua fraqueza; grande pela energia cuja força é a fraqueza de sua fé; grande pelo saber da fé cujo segredo é loucura aos olhos dos outros; grande pela esperança cuja forma abraçou o impossível; grande pelo amor que é ódio a si próprio contra o orgulho, mas obediência a Deus sem perder a ternura por seu filho. 

O meu ponto com essa história bíblica é o seguinte: Algumas vezes os pais precisam tomar decisões, fazer opções na vida onde os grandes prejudicados são os filhos. Em quase todas as nossas decisões como pais, está em jogo a vida de nossos filhos e, muitas vezes, nas opções que temos pela frente não dá para evitar que os filhos fiquem expostos. Há aqui na narrativa deste texto, um pai que sabe que o caminho que tem diante de si não é um caminho simples, nem fácil de ser percorrido e traduzido à compreensão do seu filho, que pode ser a maior vítima de sua trajetória. Então, como tomar estas decisões que lançam os nossos filhos no lugar da perplexidade e ainda assim construir um caminho saudável de paternidade ao lado deles? Esta é a minha questão com este texto. 

Muitas vezes as decisões que temos que tomar não facilitam o caminho de nossos filhos: a mudança de emprego, a mudança de cidade, por aperto financeiro, a mudança da escola que estão acostumados e adaptados. A perda drástica do padrão social, quer por enfermidade ou desemprego, impondo a necessidade de morar com alguém da família, a separação e a construção de um novo casamento, etc. Quase sempre em nossas escolhas estão implícitas duas possibilidades para os nossos filhos: vida ou morte. É sobre esse caminho de incerteza, de expectativa, de dor, de controvérsia na vivência familiar do caminho entre pais e filhos que eu escrevo. E, através da trajetória difícil de Abraão e Isaque, procuro desvendar o segredo da paternidade que se constrói saudável, mesmo em meio ao trauma, para oferecê-la como referencial à nossa própria paternidade. Que tipo de caminho Abraão construiu com seu filho que apesar de tudo marcou a vida de Isaque com uma presença paterna saudável? 

A primeira marca que quero destacar como saudável na presença paterna de Abraão na vida de seu filho Isaque é a espiritualidade como referência para um sentido maior na vida (Vs. 1-5). 

Abraão não sabia com precisão o que o esperava pelo caminho, muito menos Isaque o sabia, mas ambos só estavam nesse caminho porque Abraão ouviu a voz de Deus e obedeceu. Ou seja, a vida é mais que nascer, crescer, trabalhar, casar, juntar posses, envelhecer, morrer. Nenhuma dessas coisas oferecem sentido para vida além da banalidade do cotidiano. É na voz de Deus, seguindo esse som na alma que encontramos um significado maior para vida. Abraão e Isaque estavam fazendo um caminho, não era uma caminhada distraída no parque, era um caminho difícil, mas eles não estavam ali por acaso, por obra do destino, estavam ali por um propósito porque um homem ouviu a voz de Deus. Seja qual fosse a dor que Isaque teria que enfrentar, seu pai deixaria marcado em sua memória que há um Deus que define a direção da vida e, é isso que em meio a toda e qualquer circunstância nos oferece um senso de direção e objetividade na vida. Isaque, afinal, sabia que não estava ali por irresponsabilidade do seu pai, por um espírito aventureiro, havia um propósito nesta caminhada, uma direção que foi partilhada entre pai e filho. Abraão sabia para onde estava indo, por isso Isaque seguia seguro com ele. Filhos precisam saber que a vida tem uma direção certa por trás das opções feitas por seus pais. Pais sem direção, sem objetividade na vida geram filhos inseguros. 

A segunda marca saudável que eu quero destacar no modelo da paternidade desenvolvida por Abraão é a opção pela intimidade. Abraão realizou um caminho de intimidade e proximidade afetiva com Isaque (Vs. 5 e 6). O que eu gosto nesses dois versos é a insistente afirmação de que eles estavam juntos: “Caminhavam ambos juntos”. Abraão sabia que o caminho era difícil, que era um caminho de perplexidade, dúvidas, de dor, de angústias para ele e para seu filho Isaque. Caminho onde os dois teriam muitas perguntas sem respostas sobre a vida e sobre si mesmos, um caminho onde eles iriam se encontrar e se distanciar, se reconhecer e estranhar. Mas uma coisa Abraão deixou marcada na mente de seu filho, de que sendo qual fosse a perplexidade do caminho, mesmo que ele não tivesse resposta para as perguntas do filho, eles estariam sempre juntos, lado a lado, até o final. Não eram dois no caminho, eles eram um. Não há paternidade saudável na indiferença, no distanciamento. É a intimidade que constrói essa estrada. O que nossos filhos desejam não é que tenhamos todas as respostas para as suas indagações no caminho que escolhemos viver, mas, tão somente sentirem que estamos juntos, que eles cabem integralmente em nossa vida e que é um caminho construído de amizade e intimidade. Você tem feito um caminho de intimidade e proximidade com seus filhos pelas veredas da vida? 

Uma terceira marca saudável na paternidade de Abraão é a construção de um caminho de fé e esperança apesar das dificuldades (Vs. 7 e 8). Abraão estava, com certeza, fazendo a caminhada mais difícil de sua vida. Não era fácil para ele e nem para Isaque seu filho, mas o único que tinha real convicção dos riscos e da delicadeza do momento era ele, Abraão. Muitas deveriam ser as perguntas e os questionamentos em sua alma. E é aí que surge uma pergunta cortante e desconcertante de Isaque, daquele tipo de pergunta que os nossos filhos costumam fazer quando percebem que alguma coisa não vai bem: “Meu pai… eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Isaque não sabia o que estava se passando mas Abraão sabia. E apesar de toda a angústia de sua alma pela dificuldade do momento, aproveitou para deixar marcado na vida do seu filho, que qualquer dificuldade deveriam enfrentá-la sempre com fé e esperança, por que Deus é soberanamente capaz de prover os recursos necessários para a vida. E responde a Isaque: “Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto…”. Será que nós estamos ensinando aos nossos filhos a enfrentar a vida com o olhar da esperança e da fé? Os nossos filhos estão indo para a vida com essa voz, com essa possibilidade que ouviram de nossos lábios: “Deus proverá, meu filho!”? Ou tudo o que eles têm percebido olhando para nossa postura frente às dificuldades é o pessimismo e a desesperança? Os nossos filhos serão 

tão corajosos e audaciosos para a vida, quanto percebam em nós uma postura de coragem, fé e esperança para além das dificuldades. 

A quarta marca da paternidade de Abraão que quero destacar, é a construção de um caminho de amor mesmo em meio a dor (Vs. 9 a 14). Sabe o que é engraçado? É que por muitas vezes a dor é consequência do amor. Toda essa caminhada difícil, de perplexidade, só aconteceu porque Isaque era o único filho, o filho a quem Abraão amava, como diz o verso 2. Isaque não está ali por rejeição paterna, mas por amor. No amor sempre está embutido a dor, não temos como evitar, a dor a quem amamos, por mais que tentemos. E, por isso mesmo, muitos preferem a indiferença ao acolhimento e ao amor. Essa é a angustiante crise da paternidade: de que na vida, a única coisa que está em jogo e que temos a sacrificar nas nossas decisões é o que mais amamos – os nossos próprios filhos. Filhos só superam as perplexidades geradas por seus pais, quando acima de tudo em suas lembranças há uma afirmação do amor. E, isso se lhes tornará mais claro quando também forem pais. Isaque só saiu disso tudo saudável, apesar da cena que vivenciou com o seu pai, porque soube que estava ali por amor. Então, a única chance que temos de não deixar que essa possibilidade da dor futura, causada pela perplexidade que geramos com as nossas decisões e escolhas, adoeça a nossa paternidade na lembrança de nossos filhos é se a memória deles estiver marcada pela coragem com que vivemos o amor por eles. Os nossos filhos precisam saber que foi impotência, por fracasso pessoal que não conseguimos evitar que eles se machucassem por causa das nossas decisões e não por falta de amor. Por isso, a única coisa que tenho a dizer em defesa de mim mesmo aos meus filhos é perdão e que tudo que tentei foi por amor, mesmo que isto não tenha impedido que sofressem. Porém, creio num Deus que vai curar a memória dos meus filhos e que tem poder para salvá-los mesmo que seja de mim mesmo, como no monte Moriá o Senhor falou a Abraão: “Do céu lhe bradou o anjo do Senhor: Não estendas a mão sobre o rapaz…O Senhor proverá”. 

A quinta e última marca saudável da paternidade de Abraão que quero destacar é a construção de um caminho, que mesmo em meio às contradições, crê na bênção de Deus para a vida do seu filho (Vs. 15 à 19). Este texto faz uma afirmação na contra mão daquilo que se prega hoje em meio à igreja evangélica no Brasil: A de que nem toda dor e perplexidade representam maldição. Deus tem caminho na tempestade, na adversidade. Paradoxalmente, este caminho de muita perplexidade para Abraão e seu filho Isaque foi também o caminho da bênção. Estes últimos versos deixam claro que até o final Abraão estava ali não para sacrificar o seu filho, mas para buscar a benção de Deus sobre ele. Só se supera caminhos tão ambíguos e perturbadores ao lado de nossos filhos se de fato cremos que no fim de tudo Deus têm bênçãos para os nossos filhos: “… deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência…” (vs. 17). Abraão jamais admitiu perder seu filho naquele monte. Não foi buscar a morte e sim a benção para seu filho pois estava convicto que iria e voltaria com o rapaz, como afirma o verso 5. Amar ao Senhor acima de todas as coisas é sempre a melhor forma de abençoar definitivamente aos nossos filhos, mesmo que o caminho seja de dor. 

Espero que este texto tenha desafiado você a repensar o caminho de sua paternidade. Deus abençoe você e feliz dia dos pais.